quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Carta aberta ao ano de 2009 (ou o maior post de todos os tempos)

Caro 2009,

Agora que te restam poucas horas de vida, constato que tenho sentimentos ambivalentes para contigo. Pensei que seria fácil deixar-te ir, de tanto que te odiei, mas parece que ficou cá dentro um certo carinho pela tua pessoa. No fundo, e por muito mau que tenhas sido, sei que poderias ter sido bem pior, dadas as circunstâncias, e isso faz-me gostar um bocadinho (assim pequenino) de ti.

Quando entraste, apanhaste-me ainda a digerir a notícia que o teu antecessor, o 2008, me deixou. Tinha um problema de saúde grave, daqueles que assustam, acabado de descobrir numas análises de rotina. Como seria isso possível, se eu me sentia tão bem? O meu mundo desabava quando chegaste. Mas tu conseguiste, logo nos teus primeiros dias, tornar a minha vida ainda pior. No início de Janeiro, atiraste a minha mãe para uma cama de hospital, com uma doença que os médicos tardavam em diagnosticar, e que a paralisava aos poucos. Tocaste-me no meu ponto mais fraco, na pessoa que mais amo nesta vida e que era (e é) o meu porto de abrigo no meio da tempestade que se abateu sobre mim. Fizeste-me reaproximar de Deus e sentir-me a mais humilde das pessoas quando entrei naquele dia, naquela igreja, e me ajoelhei perante o altar a oferecer a minha vida em troca da dela.

O diagnóstico chegou, e com ele uma nova palavra: mielite. Uma infecção na medula, de origem vírica, uma doença bastante rara, com uma incidência de apenas cerca de 2 casos por milhão de habitantes. Os médicos não sabiam o que esperar, a maioria deles nunca se tinha deparado com um quadro destes "ao vivo e a cores". Nessa altura, a minha mãe já não sentia nada do pescoço para baixo, já nem as mãos conseguia mover para me fazer um carinho. As minhas pesquisas na Internet não eram animadoras, a maioria dos relatos que encontrava eram de pessoas que nunca chegaram a recuperar a mobilidade. Mas naquele momento, o prioritário era que ela sobrevivesse.

Ao fim de uma semana a tomar corticóides e aciclovir, a febre foi cedendo, e finalmente ela foi transferida para uma enfermaria normal, onde a podíamos ver a qualquer hora do dia. Percebemos que o risco de vida tinha passado, e deste-me a primeira alegria do ano. Aí vieram as dúvidas: será que ela algum dia voltaria a andar? Tive momentos de grande desespero, como aquela noite em que reli todas as mensagens que tinha dela no meu telemóvel e fiquei em choque, com medo de que ela nunca mais fosse capaz de fazer algo tão simples como escrever uma sms, ou ir-me buscar ao trabalho. Mas a cada dia, ela surpreendia-nos com uma nova proeza. Já movia o dedo grande do pé, já sentia quando lhe tocávamos no joelho, já levava o copo da água à boca... E uma bela manhã, acordei com uma mensagem cheia de erros, que me fez chorar de alegria.
Sabes, acho que se não fossem estas pequenas conquistas, eu teria ido abaixo. Mas estas coisas que parecem insignificantes para quem está de fora, iam alimentando a esperança de que a minha mãe seria diferente dos casos que eu lia na Internet, de que ela voltaria a andar e a ser a pessoa que era antes.

Mas claro, eu a começar a erguer-me, e tu a fazeres questão de me voltar a fazer cair! Sim, 2009, estou a falar daquela última sexta-feira de Janeiro, em que saíamos os três (eu, o meu pai e a minha irmã) do hospital e nos dirigíamos para o parque de estacionamento. Chovia fortemente e eu e o meu pai partilhávamos um guarda-chuva. Já íamos a meio da passadeira, quando aquele carro decide acelerar e levar-nos à frente. Vi que a minha irmã escapou por milímetros, mas eu e o pai não tivemos tanta sorte. Foi tudo muito rápido, senti aquele impacto arrebatar-me, vi o meu pai ser projectado e achei que o tinha perdido. A minha perna doía que se fartava, mas nem me importei, levantei-me do chão e corri para ele. Vi que ele falava, que se mexia... Liguei para o 112 ainda descrente do que nos estava a acontecer: mãe internada com uma doença altamente improvável e nós atropelados, em frente ao hospital, numa passadeira, por um polícia!
Confirmei que no que toca a proteger os que amo, sou mesmo uma fera. Por pouco não bati no condutor do carro e a raiva que eu sentia não era por mim, mas pelo meu pai. Percebi nesse momento que apesar das nossas divergências do passado, também seria capaz de dar a minha vida por ele. Felizmente, e curados os hematomas, ficou só um menisco atrofiado. Poderia ter sido bem pior, de facto.

Em Fevereiro, a minha mãe foi transferida para a unidade de reabilitação. Foi difícil ao início, já que tínhamos expectativas muito elevadas e queríamos tudo para ontem, mas os progressos lá se foram dando e no dia 20, quando a minha irmã completou 22 anos, a minha mãe conseguiu fazer-lhe a surpresa de ficar em pé, já sem apoio. No meio de tanta tristeza, da falta que sentia dela em casa, estas conquistas sabiam a milagre e faziam-me chorar de felicidade. Depois vieram os primeiros passos com o andarilho, depois de mãos dadas connosco...

No final de Março, quando finalmente teve alta, já entrou em casa pelo próprio pé. A neurologista que a acompanha diz que, no que toca a mielites, o caso dela é o que de maior sucesso ela conhece. Continua a fazer fisioterapia diariamente, a não ter a sensibilidade toda nos pés, a cansar-se mais facilmente, mas consegue ter uma vida perfeitamente normal. Caminha, equilibra-se bem, conduz, faz praticamente tudo o que fazia antes. Sei a sorte que tivemos, porque li sobre muitos casos semelhantes ao da minha mãe e nenhum recuperou tanto e tão rapidamente como o dela. Fomos realmente muito abençoados, no meio do infortúnio.
Em Março foi também quando iniciei este blog, que me tem dado tantas alegrias e me tem permitido conhecer gente tão fantástica.

Abril chegou, e eu neste estado de graça, típico dos que sentem que realmente a vida lhes deu uma segunda oportunidade. Concentrei-me no trabalho, que havia ficado um pouco esquecido.

Maio foi o mês da mudança: a minha irmã arranjou o seu primeiro emprego e eu tive também outras propostas de colaboração em projectos, que prontamente aceitei. Foi ainda o mês em que comprei o meu carro novo, um grande orgulho para mim, por ter sido pago a pronto e sem a ajuda dos meus pais, exclusivamente com o meu dinheiro.

Junho: o mês do aperto no peito, pelas suspeitas de que a minha mãe pudesse ter cancro da mama. Julho prolongou essa ansiedade, foram as consultas no IPO, as biópsias e, mesmo no fim do mês, o respirar de alívio, os pulos, os abraços e as lágrimas de felicidade à saída da consulta.

Agosto foi o mês dos 26, das noites longas, das esplanadas à beira-rio e à beira mar, das tardes de praia.

Em Setembro, chegou a notícia de que a minha irmã iria trabalhar na banca, como sempre quis, e o orgulho sentido ao espalhar a notícia aos quatro ventos.

Depois veio Outubro, e aquela consulta em que me foi proposto fazer o tratamento (ao longo dos meses anteriores tinha vindo a ser submetida a vários exames desagradáveis, dos quais nem vale a pena falar). O medo, o reavivar das emoções que experienciei quando descobri esta bomba-relógio... Mas a certeza de que a minha família estará sempre lá para me apoiar e de que isso significa sempre partir para o campo de batalha em vantagem face a qualquer inimigo. Foi também em Outubro que me assaltaram o carro, estás recordado? A minha fé na humanidade ficou irremediavelmente comprometida nesse dia.

Em Novembro, mais projectos profissionais, mais trabalho, mas também a compensação financeira.

Por fim, veio o Dezembro, as primeiras doses de veneno e, com elas, as primeiras reacções adversas: a falta de apetite, os enjôos, as nódoas negras, as dores musculares, as oscilações de humor. Mas mais uma vez, tenho de me orgulhar de mim mesma: foi o mês mais agitado do ano, aquele em que mais trabalhei, e mesmo assim aguentei-me heróicamente, sem nunca faltar ao emprego, ou sem denotar qualquer sinal de fraqueza. Veio o Natal, o caos da compra das prendas em tempo record, o frio da aldeia... E eis que chegas ao fim.

Como vês, resumindo aqui tudo aquilo pelo qual me fizeste passar, és o digno vencedor do título de pior ano da minha vida. Quase que me levavas a mãe, quase que me tiraste o pai, voltaste a ameaçar a minha mãe com um cancro, fizeste-me chorar e sofrer como nenhum outro fez, obrigaste-me a trabalhar como uma escrava, a abdicar da minha vida pessoal. Não satisfeito, ainda me presenteias com um tratamento em que me injectam mata-ratos nas veias e me obrigam a tomar remédio do escaravelho em comprimidos (não é bem isso, mas é isso que o meu corpo sente).
Perante este cenário, devia estar em festa, por finalmente chegares ao fim. Sempre pensei que estaria, mas agora até me afeiçoei a ti. Foste um filho da p%#! de um ano, mas, no fim de contas, tudo se resolveu e nada foi irremediável. A minha mãe não só sobreviveu à mielite, como recuperou quase na totalidade. Isso fez-me crescer, rever as minhas prioridades, valorizar as coisas que vinha dando como inequivocamente adquiridas no meu dia-a-dia, mas que agora sei que são efémeras, e por isso devem ser bem aproveitadas e saboreadas. Eu escapei do atropelamento com umas pisaduras e o meu pai com um pequeno problema no joelho: ficámos os dois vivos para contar a estória! O nódulo da minha mãe, que tanto alarmou o radiologista, era benigno! A minha irmã realizou o seu sonho profissional! A mim, numa época de tanto desemprego e crise, nunca me faltou trabalho e foi-me dada a oportunidade de lutar contra este problema de saúde que há um ano atrás eu tinha como uma sentença de morte.

No fim de contas, também me trouxeste muitas coisas boas, 2009. Ou pelo menos, minoraste bastante as coisas más que aconteceram e que poderiam ter sido infinitamente piores. Por isso, apesar de estar feliz por acabares, sinto que te devo um obrigada e uma homenagem. Por favor, recomenda-me ao 2010, conta-lhe como me trataste, como foste injusto comigo, e pede-lhe para me compensar, que eu bem estou a precisar, ok?

Até sempre,

Cinderela

A minha única previsão para 2010

Para que não fiquem a achar que estou subnutrida

Inexplicavelmente, esta falta de apetite ainda não se repercutiu no meu peso. Mantenho os 52kg que alcancei no Verão, à custa de tantas lambarices e de muito pouco exercício físico. E cada vez olho para os 50kg com mais saudade e nostalgia...

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Dieta forçada

Ando sem apetite. Sei que preciso de me alimentar, que neste momento uma boa nutrição é essencial para ajudar à acção do tratamento, mas a hora das refeições tem sido dolorosa. Sinto-me novamente com 7 anos, o prato de comida já fria em frente a mim, os amigos lá da rua a tocarem-me à campainha para ir brincar, e a mãe irredutível na sua decisão de não me deixar sair enquanto não comer tudo.

Já lá vão 19 anos desde esse tempo, já não moro na mesma rua, os amigos dessa altura perderam-se pelo caminho e os de agora mandam sms em vez de virem cá bater à porta... Mas a mãe continua a mesma de sempre, continua a fazer o mesmo ar de chateada ao olhar para o meu prato, continua a caprichar na apresentação da comida ("porque os olhos também comem"), continua a comprar do bom e do melhor, na esperança de que desta vez eu coma tudo. E como já sou crescidinha para me proibir de sair de casa, arranja outras formas mais subtis de me chantagear. E tudo isto seria ridículo, se não fosse feito com tanto amor e com tão boa intenção, mas sendo assim até se torna engraçado. Percebo que para ela isto seja tão ou mais complicado do que para mim, que lhe custe pensar que alguma coisa pode não correr bem pelo facto de não me alimentar convenientemente, que o instinto maternal dela a leve a esquecer-se que já sou adulta, e que ao olhar para mim ela continue a ver a mesma menina de totós, que se recusava a comer o peixe e a sopa.

E eu vou continuar a fazer um esforço, a negociar com ela aquelas duas garfadas a mais que já não consigo engolir, mas que a deixam um pouco mais tranquila; vou continuar a espremer e a comprimir a comida no prato, para criar a ilusão de que as sobras são poucas; vou continuar a encher as gavetas da minha mesa no trabalho com pacotes de bolachas que não faço intenções de comer; vou continuar a beber os Capri-Sonnes de tutti frutti, os mesmos da minha infância, que na falta de algo mais consistente, "sempre têm algumas vitaminas".

Presente envenenado


Ontem, o chefe disse-me que hoje poderia ficar em casa. Pulei de contente com tamanha generosidade, apesar de achar mais do que justo, dado o meu empenho e profissionalismo ao longo de todo o ano. Só no fim do dia, ao vir embora, é que percebi que isso do "ficar em casa" era mesmo literal: deu-me tanto trabalho para fazer até amanhã, que não tenho outro remédio senão ficar mesmo em casa, em frente ao computador, na árdua labuta de sempre.

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Se Jesus tivesse Twitter


Se calhar, já mudava de salão

Fui à cabeleireira retocar as minhas nuances. Uso-as em tons de mel, muito discretas, mas fazem um efeito giro, dão mais luminosidade ao rosto. O problema é que desta vez a senhora cabeleireira deixou as pratas tempo a mais, e agora estou mais loura do que gostaria.
Comigo é assim: quando é para correr mal, é mesmo para correr mal! Nem o cabelo escapa...

domingo, 27 de dezembro de 2009

Mais um dia daqueles

Porque está a chover. Porque hoje a tristeza é das fortes. Porque me apetecia adormecer e só acordar daqui a um ano. Porque há dias em que nada faz sentido. Porque sim.



Rain - Mika

You better get back
'Cause I’m ready for
More than this
Whatever it is
Baby, I hate days like this
Caught in a trap
I can't look back
Baby I hate days like this

sábado, 26 de dezembro de 2009

E até nem sabem bem com este frio...

Percebemos que uma pessoa tem demasiado tempo livre quando a vemos considerar a hipótese de assinar uma petição online para trazer o Calippo Cola de volta à Olá.
Sim, irmã, esta foi para ti. Vai mas é trabalhar, que o mestrado não se faz sozinho!

Do Natal 2009

Foi um dos piores de sempre. Quando finalmente começo a ter uma noção mais alargada de família e a nutrir carinho pelos tios que vejo 3 vezes por ano, eles acabam por me desiludir, por me fazer voltar a acreditar que a família são apenas os meus pais e a minha irmã.
A agravar a situação, começo a sentir os efeitos da medicação no meu humor: reacções agressivas, completamente desproporcionais e desadequadas, ataques violentos de tristeza... Passei a Consoada a tentar não me desfazer em lágrimas à frente de toda a a gente, a sentir-me o mais miserável dos seres à face da Terra, com pena de mim mesma. Depois passa, mas há momentos em que parece que toda e qualquer réstia de alegria é sugada para fora de mim, como se o mundo nunca mais me fosse fazer sorrir, como se não houvesse esperança. Calhou muito mal que um desses momentos tivesse de coincidir precisamente com a noite de Natal.

Quanto a presentes, como já deixei escapar, o melhor mesmo foi o da minha irmã, que decidiu oferecer-me o netbook que eu andava a ganhar coragem para comprar. Adorei, adorei, adorei! Fiquei sem palavras ao desembrulhar o pacote e ao deparar-me com ele, pequenino, branquinho e meu! Não merecia tanto, mas a minha irmã tem um coração de ouro e como este é o primeito Natal em que trabalha, decidiu que eu merecia um presente (ainda) melhor do que o costume. Digam lá que ela não é mesmo a melhor do mundo, ah?
Recebi também uma pulseira da Pandora, de que gostei muito. O resto foram aquelas prendas do costume: perfumes, brincos, bombons...


Eee pc 1005HAH Seashell

Também não tinha tido oportunidade de vos contar que no dia 22 soube o resultado de uns exames e que o termo utilizado pela médica foi "sucesso". Não foram uns exames ainda muito extensivos, mas os indicadores contemplados apontam para que eu esteja bem melhor do que à data de início do tratamento. Foram boas notícias que trouxeram algum conforto a estes dias complicados que tenho vivido. Pelo menos, parece que não está tudo a ser em vão.

sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

Merry Christmas

Não sou a desnaturada e mal educada que vocês estão a pensar. Na verdade estes últimos dias foram tão caóticos que não deu para passar cá a desejar boas festas, ou mesmo para deixar um beijinho nos vossos blogs. No entanto, o dia de Natal é hoje, por isso espero ainda ir a tempo para vos desejar a todos um feliz Natal, com tudo aquilo a que vocês têm direito.


Mais logo volto para vos contar as minhas aventuras e desventuras, mas assim para que fiquem já com uma ideia, este é um post histórico, porque é o primeiro que escrevo directamente do meu portátil novo, um Asus Eee PC 1005 HAH.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Cliché

Sonho com aquela sexta-feira em que finalmente vou poder postar aqui o vídeo dos The Cure, o Friday I'm in Love.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

I'm loving it


O ponto alto do meu dia deu-se quando descobri que está prestes a abrir um McDonald's perto de minha casa. Senti-me feliz só de pensar que, dentro em breve, poderei passar a ir a pé buscar um Sundae de morango.

É triste que coisas dessas sejam o que de mais excitante acontece na minha vida.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Really does suck

Há quem tenha um emprego, há quem tenha um trabalho... Eu? Eu tenho um karma.